OLARIA DE ARADAS
O artesanato é uma das actividades mais vincadas da região de Aveiro. Existe uma grande variedade de produtos fruto de um leque abrangente de actividades manuais, no entanto a cerâmica continua a ser a arte tradicional mais representativa e de maior qualidade, com tradições multi-seculares que traduz a forma de vida alegre das gentes da região.

Há conhecimento da existência de oficinas de olaria em Aradas pelo menos desde finais do século XIX.

A matéria-prima é abundante e fácil de encontrar pois esta é uma zona muito rica em várias qualidades de barro e como tal, Aradas deve ser uma das mais antigas de Portugal. De acordo com os estudos de Marques Gomes e Joaquim Vasconcelos, testemunhos recentes sublinham o facto de Aradas ser na região a única localidade especializada em panelas de barro.

Pequena resenha histórica:

Segundo dados disponíveis no Inquérito Oficial de 1865, o concelho de Aveiro possuía 54 moinhos de água, 2 moinhos de vento, 17 lagares de vinho, 46 teares, 1 forno de telha e tijolo e 34 olarias. Destas, 26 encontravam-se em Aradas.

Em 1916, o Anuário Comercial refere oito fabricantes de barro preto: António Marabuto, Francisco Nunes Pelicano, Francisco Oliveira, José Sarrico, Manuel Branquinho, Manuel Oliveira, Manuel dos Santos Marabuto e Pedro Casqueira.

Em 1923, Manuel Gonçalves da Vitória constrói em Aradas a primeira fábrica de louça branca. Contudo ao longo da década de 30 apareceram ainda as fábricas de louça de João Vitória e João Moreira. Esta louça era chamada de "barro branco churro".

Ainda na década de 30 do século XX havia, só nas freguesias de Aradas no lugar da Quinta do Picado dezanove olarias em funcionamento. Eram pequenas empresas familiares onde normalmente todos os membros da família trabalhavam, incluindo as crianças. Se tinham empregados, estes raramente ultrapassavam os dois ou três.

Nestas olarias fabricavam diversos objectos de louça vermelha ou preta, que eram depois, directamente ou recorrendo a intermediários, vendidos nas feiras e romarias das redondezas.

São estes os representantes das novas e velhas dinastias de oleiros de barro de Aradas. Referenciadas nos registos paroquiais, haveria cerca de uma dezena de famílias de oleiros, nomeadamente, as famílias Balcão, "Canceição" (ou Conceição), Ferreira, Génio, Lopes, Marabuto, Martinho, Oliveira, Salgueiro e Vitória.

Posteriormente, nas décadas de 50 e 60 aparecem as " Faianças da Pinheira" e "Faianças da Capoa". Estas fábricas utilizavam a faiança (louça de barro poroso, opaco, vidrado ou esmaltado e pintado). A partir desta altura começaram a desaparecer as olarias: as fábricas absorviam a mão-de-obra, o trabalho era menos duro e os operários cumpriam um horário de trabalho determinado ao contrário das olarias em que o trabalho era realizado de sol a sol.

Fica desta forma concretizada a importância da manufactura de peças em barro preto para o desenvolvimento de Aradas durante os últimos 200 anos, e para não esquecer a manufactura do passado, permanecem vivas as artes de Olaria atravás de vários artesãos que ainda existem na Freguesia.

A louça de barro preto é fabricada a partir da mistura de dois tipos de barro: barro "forte" (mais gordo) e barro "frouxo" (mais pobre), sendo maior a quantidade de barro frouxo. O barro era misturado primeiro com os pés (só a partir da década de 60 começou a ser utilizada uma máquina chamada "fieira" que misturava e amassava os dois barros, fazendo a pasta).

A pasta era depois moldada na roda de oleiro (movida com os pés), com as formas que se pretendiam que depois eram colocadas em tábuas e iam a secar ao sol. No fim de secas eram brunidas com uma pedra trazida da praia (que eram as mais polidas).

A seguir a louça era enfornada e cozida em fornos cavados na terra. A última olaria a encerrar, propriedade do Sr. Adelino Laranjeira, usava, desde 1975, um forno construído em tijolo por ele idealizado e construído. Este forno dividia-se em duas partes: a caldeira, onde era colocada a lenha, e a parte superior para colocação da louça. Estes fornos eram a lenha e atingiam temperaturas de 700º.

A cor preta era conseguida abafando o forno com terra quando a louça estava incandescente: o fumo não saía e entranhava-se no barro, dando-lhe a cor preta.

A louça vermelha era feita pelo mesmo processo da preta até à secagem. Antigamente esta louça era cozida por duas vezes: a primeira cozedura chamava-se "chacote". Depois desta cozedura era mergulhada num banho de vidrado e ia novamente ao forno para cozer o vidro. Mais tarde um novo método de vidrar veio tornar desnecessária a segunda cozedura (a pasta e o vidro coziam simultaneamente) tornando todo o processo mais rápido e rentável.

Esta louça podia ser lisa ou decorada. A decoração era feita com um líquido obtido pela mistura de barro branco com água. Depois utilizava-se uma cana bem afiada ou uma peça de metal que se molhava no líquido de barro e se usava como se fosse um carimbo. Além disso havia a imaginação de cada decorador, embora a maior parte destas decorações fosse muito parecida ao longo dos anos.

A última olaria de Aradas fechou as suas portas em 1996 e atualmente, dos locais a visitar em Aveiro, a Funceramics cumpre o seu papel fundamental de divulgação cultural da Olaria de Aradas (com a ajuda do Sr. Adelino Laranjeira, último oleiro vivo de Aradas), paralelamente às tradições gastronómicas, com os ovos-moles em destaque, e a cultura da ria de Aveiro com os tradicionais passeios de Moliceiro.

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Para além da cerâmica, a latoaria, a madeira, os trapos, o ferro forjado, a cestaria, as rendas e os bordados são outras actividades que continuam a caracterizar a forma de vida das populações aveirenses e de Aradas em particular.


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